Quando longe de ti eu vegeto, Nessas horas de largos instantes, O ponteiro, que passa os quadrantes, Marca séculos, se esquece de andar. Fito o céu — é uma nave sem lâmpada. Fito a terra — é uma várzea sem flores. O universo é um abismo de dores, Se a madona não brilha no altar. / Então lembro os momentos passados. Lembro então tuas frases queridas, Como o infante que as pedras luzidas Uma a uma desfia na mão. Como a virgem que as jóias de noiva Conta alegre a sorrir de alegria, Conto os risos que deste-me um dia E que eu guardo no meu coração. / Lembro ainda o lugar onde estavas… Teu cabelo, teu rir, teu vestido… De teu lábio o fulgor incendido… Destas mãos a beleza ideal… Lembro ainda em teus olhos, querida, Este olhar de tão lânguido raios, Este olhar que me mata em desmaios Doce, terno, amoroso, fatal!… / Quando a estrela serena da noite Vem banhar minha fonte saudosa, Julgo ver nessa luz misteriosa, Doce amiga, um carinho dos teus! E ao silêncio da noite que anseia De volúpia, de anelos, de vida. Eu confio o teu nome, querida, Para as brisas levarem-no aos céus. / De ti longe minh’alma vegeta, Vive só de saudade e lembrança, Respirando a suave esperança De viver como escravo a teus pés, De sonhar teus menores desejos, De velar em teus sonhos dourados, “Mais humilde que os servos curvados! “Inda mais orgulhoso que os reis”! / Ó meu Deus! Manda às horas que fujam, Que deslizem em fio os instantes… E o ponteiro que passa os quadrantes Marque a hora em que a posso fitar! Como Tântalo à sede morria, Sem achar o conforto preciso… Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso! Tenho sede, Senhor, de um olhar.CASTRO ALVES
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Longe de Ti
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário