Nada se compara, nenhuma preocupação ou cuidado. Arrependimentos e erros, são feitos de memórias. Quem poderia ter adivinhado o gosto amargo que isso teria?
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Longe de Ti
Quando longe de ti eu vegeto, Nessas horas de largos instantes, O ponteiro, que passa os quadrantes, Marca séculos, se esquece de andar. Fito o céu — é uma nave sem lâmpada. Fito a terra — é uma várzea sem flores. O universo é um abismo de dores, Se a madona não brilha no altar. / Então lembro os momentos passados. Lembro então tuas frases queridas, Como o infante que as pedras luzidas Uma a uma desfia na mão. Como a virgem que as jóias de noiva Conta alegre a sorrir de alegria, Conto os risos que deste-me um dia E que eu guardo no meu coração. / Lembro ainda o lugar onde estavas… Teu cabelo, teu rir, teu vestido… De teu lábio o fulgor incendido… Destas mãos a beleza ideal… Lembro ainda em teus olhos, querida, Este olhar de tão lânguido raios, Este olhar que me mata em desmaios Doce, terno, amoroso, fatal!… / Quando a estrela serena da noite Vem banhar minha fonte saudosa, Julgo ver nessa luz misteriosa, Doce amiga, um carinho dos teus! E ao silêncio da noite que anseia De volúpia, de anelos, de vida. Eu confio o teu nome, querida, Para as brisas levarem-no aos céus. / De ti longe minh’alma vegeta, Vive só de saudade e lembrança, Respirando a suave esperança De viver como escravo a teus pés, De sonhar teus menores desejos, De velar em teus sonhos dourados, “Mais humilde que os servos curvados! “Inda mais orgulhoso que os reis”! / Ó meu Deus! Manda às horas que fujam, Que deslizem em fio os instantes… E o ponteiro que passa os quadrantes Marque a hora em que a posso fitar! Como Tântalo à sede morria, Sem achar o conforto preciso… Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso! Tenho sede, Senhor, de um olhar.CASTRO ALVES
Sonhos de Uma Noite de Verão
LISANDRO — Então, minha querida, por que as faces tão pálidas assim? Qual o motivo de murcharem tão rápido essas rosas?
HÉRMIA — Talvez por falta da água que lhes viesse da tempestade dos meus próprios olhos.
LISANDRO — Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranqüilo curso o verdadeiro amor. Ou era grande do sangue a diferença...
HÉRMIA — Oh sofrimento! Nascer no alto e aceitar o cativeiro!
LISANDRO — ... ou mui disparatadas as idades...
HÉRMIA — Oh dor! Unir-se a mocidade às cãs!
LISANDRO — ... ou tudo os pais, sozinhos, decidiam...
HÉRMIA — Não há maior inferno: estranhos olhos para escolher o amor!
LISANDRO — ... ou, quando havia simpatia na escolha, a guerra, as doenças, e a morte, conjuradas, o assaltavam, qual simples som deixando-o, transitório, tão curto corno um sonho, movediço como uma sombra instável, tão ligeiro como raio de noite tempestuosa que, de súbito, rasga o céu e a terra, mas que antes de podermos dizer “Vede!” pelas fauces das trevas é tragado. Tudo o que brilha, assim, em ruína acaba.
HÉRMIA — Se sempre contrariados foram todos os amantes sinceros, é que o próprio destino o determina desse modo. Que nos ensine, pois, a ser pacientes a nossa provação, já que é desdita fatal dos namorados, como os sonhos, pensamentos, suspiros, dores, lágrimas, do pobre amor são companheiros certos.
LISANDRO — Isso consola. Porém, Hérmia, escuta-me: a sete léguas, só, de Atenas mora minha tia, uma viúva muito rica que, por filhos não ter, me considera seu herdeiro exclusivo. Em casa dela, minha Hérmia encantadora, poderemos casar-nos, por ficarmos, então, fora das rigorosas leis dos atenienses. Se me amas, foge da mansão paterna na noite de amanhã. No bosquezinho a uma légua distante da cidade deverás encontrar-me, justamente onde uma vez te vi em companhia de Helena a realizar os sacros ritos de uma manhã de maio.
HÉRMIA — Meu bondoso Lisandro, eu juro pelo mais potente arco do deus Cupido, por sua seta melhor de penas de ouro, pelas meigas pombas de Vênus, pelo que une as almas e confere ao amor virentes palmas, pelas chamas em que se abrasou Dido após abandoná-la o Teucro infido, pelas juras que a todos os instantes violado têm os homens inconstantes, mais do que numerosas, infinitas, do que as que foram por mulheres ditas: amanhã, sem faltar, no grato abrigo de que falamos, estarei contigo.
William Shakespeare
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